A V Feira da Agricultura Familiar e Reforma Agrária se despede do Rio de Janeiro deixando saudade em quem comprou e em quem veio mostrar a diversidade e riqueza da produção do Brasil Rural Contemporâneo. “Estou muito satisfeita em lembrar que terei na varanda da minha casa um vaso cerâmico produzido na Amazônia”, afirmou Maria Tereza Gilternian, fluminense de Búzios.
Assim como ela, mais de 300 mil pessoas passaram pela Marina da Glória durante os cinco dias do evento, realizado pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro. Um público interessado por produtos diversificados, culinária orgânica, artesanato regional e roupas criativas fabricadas de modo sustentável fez acabar o estoque de vários dos 550 expositores mesmo antes do encerramento oficial do evento.
João Carlos Moerschberger foi um dos que venderam muito e, no final da tarde deste domingo (30), já não tinha nenhuma peça dos 300 quilos de embutidos, salames, defumados e charque de porco que trouxe de Crissiumal (RS). Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, o produtor obteve cerca R$ 7,5 mil com as vendas de seus produtos. Agora, volta para o Rio Grande do Sul com a certeza de novos negócios por conta dos contatos que manteve durante a Feira.
Ao avaliar a Feira, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, afirmou que os objetivos propostos foram alcançados: vender produtos, trocar experiências, estabelecer contatos e fechar negociações futuras. “Foi uma relação de encontro e felicidade de todos que passaram por aqui e puderam descobrir o quanto é rica a produção da agricultura familiar e dos assentamentos de reforma agrária do País”, disse o ministro.
Cassel ressaltou que muitos brasileiros ainda desconhecem que 70% dos produtos que consomem diariamente vêm das mãos e do trabalho desse segmento produtivo, que representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
A V Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária movimentou cerca de R$ 1,6 milhão de vendas diretas e gerou negócios da ordem de R$ 5 milhões em vendas futuras. “Foi muito bom para os agricultores familiares e para os consumidores do Rio de Janeiro”, reforçou Cassel.
Os cinco dias da Feira mudaram a rotina de muitos cariocas, como a de Maria de Fátima Lobo, que, neste domingo, interrompeu seu passeio ciclístico pelo Aterro do Flamengo ao se deparar com a movimentação de pessoas pela Marina da Glória. “Entrei aqui sem pretensão e estou saindo cheia de sacolas.” Maria de Fátima destacou a qualidade dos produtos oferecidos e o atendimento dos expositores. “Eles são ótimos”, resumiu.
A Feira também foi espaço para matar saudade do estado natal. Nascida em Manaus (AM) e morando há 30 anos no Rio de Janeiro, Ana Dolores aproveitou para comprar farinha e polpa de frutas típicas do Norte. A filha, Gabriele, preferiu as biojóias e o artesanato nordestino. “Adoramos tudo”, afirmou Gabriele, que não escondeu seu desejo: “Espero que a Feira continue no Rio de Janeiro por muitos anos”.
Durante os cinco dias da Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, os cariocas tiveram, no Espaço Coreto, um ponto de encontro com artistas populares que simbolizam a cultural de raiz do Brasil Rural Contemporâneo.
“Estes shows têm tudo a ver com a Feira. É muito importante também conhecer a cultura das pessoas que estão aqui, as suas histórias e ouvir o que eles têm para dizer”, comentou a advogada Ana Tavares. “É sempre bom conhecer culturas que a gente não tem contato”, reforçou a servidora pública Fátima Andrade, enquanto acompanhava a apresentação do Fado de Quissamã.
A programação do Espaço Coreto foi realizada com apoio do BNDES, como parte de sua política de incentivo à cultura popular. No Coreto se apresentaram A Barca (SP), Cantos de Andanças (MG), Cacai Nunes (DF), Fado Quissamã (RJ), Bule Bule (BA).
Para muitos expositores, a V Feira Nacional da Agricultura Familiar terminou antes do encerramento oficial, às 23h deste domingo (30). Com todos os produtos expostos comercializados, a alternativa foi alertar os visitantes.
Muitos visitantes da Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária aproveitam o domingo de sol para fazer um piquenique à beira-mar. Em meio à diversidade de produtos oferecidos pelos expositores, opções não faltam. Depois, é só se instalar em uma das mesas da Área de Piquenique da Feira e degustar os sabores do Brasil Rural Contemporâneo.
Europeus, árabes e japoneses poderão, em breve, conhecer o pequi, fruto típico do Cerrado, e a pimenta produzidos pela agroindústria Cerrado Goiano. Durante a V Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, Danilo de Pinho, responsável pelo empreendimento e um dos expositores, fez contatos importantes.
“Ele oferece um produto apropriado para exportação: bonito, diferente e de muita qualidade”, afirmou o trading Afonso Cardoso, cujo trabalho é fazer o elo entre as empresas interessadas e os produtores. Uma reunião entre os dois já foi marcada para esta segunda-feira (1º). A idéia é já acertar os detalhes do negócio. “Para mim, um dos principais resultados desta Feira é esse intercâmbio, essa troca de informações e interesses”, disse Cardoso.
No pico da safra do pequi, mais de mil pessoas, entre agricultores familiares, assentados da reforma agrária e extrativistas fornecem o fruto para a agroindústria Cerrado Goiano. O próximo desafio deles, conta o empreendedor, é popularizar o consumo do produto. “Queremos que ele deixe de ser regional. Estamos fazendo a versão do creme de pequi com ervas, por exemplo, para atingir cada vez mais um público diferenciado”.
O passeio ciclístico de Maria de Fátima Lobo foi interrompido neste domingo (30). “Entrei aqui sem pretensão e estou saindo cheia de sacolas. É difícil saber do que mais gostei. Os produtos são de muita qualidade, os preços estão ótimos e o atendimento dos expositores faz com que a gente acabe comprando mais ainda. Eles são ótimos”.
Sentada na Praça da Cachaça, ela não se conteve e fez contato por telefone com várias amigas. “Sei de muitas que gostariam de estar aqui. Tomara que dê tempo delas chegarem”. Maria de Fátima levou para casa mel, banana desidratada, rapadura, pé de moleque, açúcar mascavo e salame. “Meu problema agora é levar tudo isso. Não vai caber na minha cestinha”, divertia-se.
Pelo terceiro dia consecutivo na Feira, Catarina Viana também saiu cheia de sacolas. “Só não encontrei mais o pão de queijo de cabra. Mas foi bom ter vindo hoje de novo, pois os preços estão ainda melhores”.
Catarina considerou a diversidade dos produtos como o principal atrativo principal do evento. “Fui a Manaus recentemente e não encontrei uma esteira com motivos indígenas que estava procurando. Hoje estou saindo com ela. Conheço mercados do mundo inteiro e fiquei encantada aqui”.
Em meio ao intenso movimento nos estandes da Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, o expositor Uacana (José Petrúcio), da nação dos chucurus cariris, de Alagoas, percebeu que uma visitante esquecera sua bolsa (com dinheiro e documentos). Imediatamente, procurou o serviço de comunicação do Ministério do Desenvolvimento Agrário para que fosse difundido um aviso. A dona da bolsa apareceu em seguida. Satisfeito, Uacana não aceitou ser recompensado. “Não é meu, eu devolvo”, justificou o expositor de artesanato indígena.